Publicado em: 16/07/2012

Sem imaginação?

Em 1968, os jovens queriam a imaginação no poder. Poderiam imaginar que envelheceriam sob o poder da imagem? Jean Baudrillard, analista irônico da decadência da imaginação e da ascensão da imagem, morreu em 2007. Pensei nele e nestas palavras dele ao passar algumas horas diante de uma televisão num aeroporto vazio: “A televisão chama bastante a atenção nos tempos que correm. Faz falar dela. Em princípio, ela está aí para nos falar do mundo e para apagar-se diante do acontecimento como um médium que se respeite. Mas, depois de algum tempo, parece, ela não se respeita mais ou toma-se pelo acontecimento”. Vi alguns programas de televisão que só falavam de programas e de celebridades da televisão.
Não tenho problema em me apagar diante de JB. Ele falava sereno diante de uma taça de vinho no La Rotonde, em Paris, pontuando cada palavra com um sorriso irônico. Penso nele. Penso na recomendação que me deu quando me meti numa grande polêmica: “Transversal, transversal, nunca frontal”. Era o popular “não bater de frente”. Volto ao aeroporto. A televisão continuava a falar dela.
Nos intervalos, em telejornais, falavam de corrupção. Baudrillard me dominava a mente. Textos inteiros do seu livro “Tela Total”, que traduzi, corriam diante dos meus olhos como se eu os lesse: “A verdadeira corrupção, porém, não se encontra aí. O vício secreto está no fato, já assinalado por Umberto Eco, de que os meios de comunicação remetem uns aos outros e só falam entre eles (…) Essa situação já problemática se agrava quando uma só hipermídia, a televisão, curva-se sobre si mesma. Ainda mais que esse telecentrismo se desdobra num juízo moral e político implícito implacável: subentende que as massas não têm essencialmente necessidades nem desejo de sentido ou de informação – querem apenas signos e imagens; o que a televisão lhes fornece em profusão”.
Jean Baudrillard gostava de viajar. Tinha ido a Samarcande. Silenciosamente, acho, guardava a utopia de um mundo dominado pela arte e pelo valor do uso. Um mundo aquém e além, expressão que usava, da mercadoria.
E os nossos sonhos de transparência, para onde foram? Para onde foram as nossas utopias? “Sonhamos, em princípio, com a imaginação no poder – no poder político se entende -, mas sonhamos com isso cada vez menos, ou mesmo nada. O fantasma deslocou-se então para a mídia e a informação. Tivemos a oportunidade de sonhar (coletivamente, ao menos, mesmo se continuávamos individualmente sem ilusão) em encontrar aí liberdade, franqueza, um novo espaço público. Desilusão: a mídia revelou-se muito mais conformista, muito mais servil do que previsto; mais servil, às vezes, do que os políticos profissionais.” Buscamos uma nova esperança na Justiça. Baudrillard nos desilude. Também aí não funcionou: “Última transferência registrada da imaginação: para o Judiciário. Ilusão recorrente, pois essa operação, afora o perfume de escândalos, só encontrava valor precisamente por equiparar-se à da mídia”. O que fazer diante disso?
Imaginar outro mundo longe da política? “Terminaremos por procurar a imaginação cada vez mais longe do poder, de qualquer poder (sobretudo longe do poder cultural, tornado o mais convencional e o mais profissional possível): junto aos excluídos, aos imigrantes, aos sem-teto. Mas é preciso, de fato, muita imaginação, porque eles, que não têm mais sequer imagem, já são sequelas da imaginação do social. É aí que devemos chegar. Perceberemos a inutilidade de querer localizar a imaginação em algum lugar, simplesmente porque ela não existe mais. No dia em que isso se tornar flagrante, a vaga decepção coletiva que paira na atualidade se transformará numa náusea gigante.” O avião chegou. Ufa! – Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br