Publicado em: 12/07/2019

Depressão: Será o Fundo do Poço ou Apenas um Poço?

DR ANDERSON CASSOL DOZZA – Neuropsicólogo

“Me sinto um nada, já não me reconheço mais, não tenho vontade para mais nada. Me sinto como se fosse um espírito de um suicida vendo meu corpo em decomposição aos poucos, as dores que sinto é como se fosse vermes me comendo”. Infelizmente esse é um relato de uma pessoa com depressão muito grave, associado com outras doenças tanto orgânicas quanto psíquicas. Ainda mais triste, que esta pessoa se suicidou num momento de grande vulnerabilidade e desorganização psíquica, onde não havia mais espaço, nem tempo, para lhe dar o mínimo de conforto e de atenção que precisava tanto.

Ainda é difícil de falar sobre o suicídio, sobre a depressão, sobre a ansiedade, pois vive-se em um mundo em que se deve aparentar em ser algo ou alguma coisa feliz, mas não se consegue falar o que se sente de verdade. É muito mais fácil colocarmos uma selfie maravilhosa nas redes sociais, esbanjando vida e saúde, mas por trás de tudo isso, tirando os inúmeros filtros de fotos, o que resta? Talvez, até um momento de felicidade para alguns permaneça, mas para muitos, apenas um rosto triste, com olhos vazios, uma mente preenchida apenas com imagens negativas de si mesmo, pensamentos de insegurança, sobre o valor que a vida tem e de como seria melhor de nem existir.

Mas agora, estamos sim falando da depressão, que, segundo a OMS, atinge 4,4% (cerca de 322 milhões de pessoas) da população mundial e 5,8% dos brasileiros. Mas para combatermos esta doença, devemos entendê-la melhor. A depressão é um distúrbio mental crônico, que produz alteração do estado de humor, causando uma profunda tristeza acompanhada de desesperança.

A depressão não é frescura ou falta do que fazer, é importante podermos pensar muito diferente disso, pois acaba afetando negativamente quem sofre desse quadro psíquico, banalizando algo que é sério. Os principais sintomas são cansaço extremo, irritabilidade, angústia e ansiedade exacerbadas, insônia (ou má qualidade de sono), falta de prazer nas atividades que geralmente eram mais atrativas, pensamentos frequentes sobre morte, problemas de disfunções sexuais.

Até concordo que em muitos casos, é para “chamar a atenção” como popularmente aparece por ai. Mas esse “chamar a atenção”, é um pedido de socorro, é um alerta, é um “tapa na cara”, na nossa cara, para mostrar o quanto estamos sendo egoístas e extremamente pouco afetivos com os nossos pares, com os nossos filhos, nossos irmãos, nossos pais, com todos aqueles com os quais estamos dividindo o mesmo espaço. Está faltando mais empatia ao ser humano, para que possamos ter um momento de sabedoria e poder escutar aquele que sofre. Sim, sei que é ruim ouvir problemas, talvez até nem tão ruins quanto os que se passa, mas cada um sente e vivencia o seu problema de uma maneira diferente do outro. Havendo respeito e paciência, talvez haja maior troca de afeto e possibilidade de ajuda.

Temos que ter em mente que a depressão atinge qualquer idade, desde crianças até os idosos, e em cada fase da vida pode trazer danos tão complexos quanto a própria fase pela qual está passando a pessoa. Atualmente, na adolescência, tem-se visto um aumento do quadro depressivo, principalmente com o aumento do índice de tentativas e do próprio suicídio.

Nessa fase, é importante que os pais e/ou responsáveis, estejam atentos às mudanças muita bruscas de rotina e de humor, o próprio isolamento às vezes pode significar que algo não está certo, bem como mudanças bruscas de comportamento. Sinais de irritabilidade; raiva; sentimentos de tristeza e choro sem motivo aparente; perda de interesse na família e amigos; dificuldades de concentração, memória e de tomar decisões; pensamentos incertos sobre o futuro; pensamentos sobre morte, geralmente podem estar indicando sinais de alerta.

Ainda, na adolescência, já a muito tempo, se destaca o “bicho papão” do bullying, que causa um impacto tão devastador nessa idade, transformando um adolescente com grande potencial em algo não mais do que um “saco de pancada” e de descarregamento de frustrações e problemas dos seus pares. Isto tudo é um catalisador de futuros traumas e dificuldades, tanto no trabalho quanto na vida intima e familiar daquele que sofre com a depressão desde cedo.

A depressão não é só uma doença do século XXI, é uma doença dos séculos, desde que o “mundo é mundo” ela existiu. O que diferencia da atualidade, é que hoje temos muito mais ferramentas para diagnosticar e tratar, o que, de certa maneira, beneficia os pacientes e oferece uma qualidade de vida mais saudável.

Se formos pensar no tratamento para depressão, deve-se pensar primeiramente num trabalho conjunto entre o psicólogo e o psiquiatra. Atualmente, com a evolução da medicina, há diversos tipos de medicamentos para a depressão, seguindo orientações do psiquiatra que vai avaliar cada caso de maneira singular. Com o acompanhamento psicológico, o paciente terá um ambiente seguro para falar sobre seus sentimentos, sobre o que lhe incomoda e terá o respaldo de um profissional capacitado e livre de qualquer crítica. Por isso é essencial o acompanhamento com estes dois profissionais, onde irá se trabalhar a parte bioquímica e a emocional/afetiva.

Além disso, hoje em dia, com a tecnologia, há diversos programas e aplicativos que podem ajudar no dia a dia de pessoas que sofrem de algum tipo de transtorno psíquico. Ainda, há possibilidade de manter contato com psicólogos através da psicoterapia online, já autorizada pelo Conselho Federal de Psicologia (Resolução CFP nº 11/2018).

No mais, também se faz necessário manter uma rotina de vida saudável, através de alimentação equilibrada, pratica de exercícios físicos, realizar atividades prazerosas, mesmo que não haja tanta vontade, mas o próprio desafio de pensar e lutar contra o desanimo já torna a busca pela saúde uma terapia. Já existem casos sendo estudados, de que com o uso de acupuntura e musicoterapia seriam coadjuvantes numa recuperação do paciente.

Além disso, manter uma rotina de trabalho, tentar fazer algo novo, aprender algum jogo ou usar o computador/celular, tentar uma atividade nova (Pilates, Hidroginástica), viajar para lugares diferentes, conhecer culturas novas, aprender sobre algo novo. Todas são dicas que auxiliam numa “reprogramação” do cérebro, para que se ativem as áreas ligadas ao prazer e motivação.

Por fim, conversar sobre os problemas, dividir os sentimentos e frustrações, com pessoas que se importem e são parceiras pode ajudar a encontrar uma solução para o problema. As vezes pode ser algo insignificante, algo que não importe para mais ninguém, apenas para quem está sofrendo, porém é algo que continua incomodando, deve ser compartilhado da mesma forma.

Nada do que foi escrito aqui vai fazer diferença se não houver o envolvimento de todos que estão relacionados ao paciente. É preciso muita compreensão, muita paciência, muita dedicação de todos para a psicoterapia funcionar, para que a medicação comece a fazer efeito, para que a depressão seja encarada de frente.

Se você, de alguma maneira, sentiu-se desconfortável com essas informações, ou, se identificou com algum sintoma, procure alguém para conversar sobre isso, sobre o que sentiu. Se, caso, tais sentimentos negativos continuarem durante mais tempo, procure um médico, um psicólogo ou um psiquiatra, algum desses profissionais vai conseguir te ajudar. Atualmente tem funcionado o Centro de Valorização da Vida (https://www.cvv.org.br/), que conta com voluntários para ajudar em qualquer momento.